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possibilidade

  você não sabe, mas eu já te toquei. na ideia. na pausa entre um assunto neutro e o sorriso torto. na respiração um pouco mais funda em meu perfume. na vontade crua de fingir que era só educação. eu vi. como teus olhos me vestiram antes de encontrar os meus.  como tua voz mudou de textura, da formalidade ao sussurro não dito. e eu pensei em dizer, mas seria injusto. comigo, contigo, com o que não faremos. porque se eu dissesse, você saberia. saberia que eu reparei na forma como teu corpo ocupa espaço. no jeito que tua camisa dobra no ombro. no calor do teu pescoço imaginado. na curva dos teus lábios  quando ri sem motivo. eu imaginei teu cheiro. não o do perfume... imaginei tua boca:lenta. insegura, no começo. até descobrir que eu gosto de comando. Nada é mais perigoso do que alguém que provoca, sem saber o quanto provoca. ou sabe? sabe.

Um lembrete para o futuro

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Pensando bem, 2023 não foi este ano caótico que, sem pensar, fico reafirmando por aí. Foi um ano de faxina e, nessa faxina, descobertas. Acho que foi assim para muita gente. A gente aprendeu que devemos reclamar, que devemos dar ênfase aos nossos perrengues, problemas e frustrações, enquanto nos bastidores corre um riacho calmo e constante. Passamos a vida dando atenção às coisas que não dão certo. Tanto que lembramos muito mais do que nos frustrou do que do que conquistamos. Acho que todo mundo deve ter essa visão deturpada da vida, como se fôssemos programados para manter a cabeça baixa para não vermos tudo o que existe à nossa volta. Passa um filme em minha cabeça. Uma animação Disney com nuvens e balões em tons de pastéis, e flutuando nesse lugar suave e colorido, há uma criança vestida de princesa e sapatos de bailarina e cabelos cacheados castanhos, com cachos suaves. Que criança bonita! Mesmo com os joelhos escuros dos ralados da infância, mesmo com algumas marquinhas em seu ros...

Contra-corrente

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Eu sinto em meu corpo uma brisa fria, mas o dia está quente la fora. Há algumas estrelas solitárias no céu escuro sem a presença da lua. Sinto um cheiro entrar pela janela do quarto, é doce. No geral, faz silêncio, mas se eu me concentrar eu ouço os ruídos da vida que segue seu fluxo, la fora. Eu não faço mais parte.  Minha pele cheira a sabonete, no meu recanto só há a penumbra e um vazio tão intenso que incomoda. Eu fecho os olhos, puxo o ar... quero que as palavras fluam mais uma vez e encontre o mais profundo abismo dentro de mim, trazendo essa dor que insiste em incomodar.  Me pergunto o sentido de permanecer distante da vida lá fora. Me questiono o motivo de não me aproximar. Quando olho, parece que já faz alguns anos que deixei os remos e não controlo mais o rumo que eu sigo. Já faz algum tempo que me alimento dessa letargia e de pílulas para dormir que me causam insônia. Já faz algum tempo que estou perdida e caminhando sozinha.  Eu não encontro as respostas, mas ...

Lembrança (Hoje a noite não tem luar)

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Eu lembro que eu vestia uma calça branca e uma blusa de tule azul turquesa.  Naquela época não era possível alisar o cabelo e  meus cachos modelados com gelatina caiam pelas costas.  Eu me lembro do cheiro. Não usava maquiagem e as bijuterias não combinavam com os sapatos de segunda mão.  Era fim de ano, festa  da igreja.  Naquela época era feita na escola e tinha uma mesa de frutas.  Eu não queria sentar no chão (minha calça branca), mas estava encostada na mureta sob as árvores que escondiam a luz laranja dos postes.  Fazia uma brisa suave que soprava o cheiro das frutas misturados com a gelatina do cabelo.  O gosto era doce.  Eu lembro do sorriso meio bobo, dos fones de ouvido e do cd “novo” da Legião.  Eu ouvia escondido.  Me lembro do olhar enquanto ele caminhava em minha direção.  Havia lua, mas eu cantava baixinho “hoje a noite não tem luar”.   A gente se entendia... as pernas cederam e nos sentamos no mei...

Uma carta na brisa para meu terapeuta (ou será para meu amigo)

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Eu aguardo alguma coisa chegar, mas não sei exatamente o que é. De repente, minha mente parece diminuir e todos os pensamentos fogem. Sinto um leve formigamento nos dedos enquanto digito. Meus dentes estão mais apertados que o normal, rangendo uns contra os outros. Meu coração bate rápido, o sangue que pulsa na garganta queima. Quero salvar o mundo, mas também desejo só ir deitar com um livro nas mãos e me perder em um universo paralelo e único. Quero respirar enquanto corro para não perder o próximo trem. Essa sensação é maravilhosa, o calor que transpassa o corpo, pulsos acelerados, mãos ágeis. Então, por que esse pensamento irritante de que "existe algum perigo"? Por que sinto o sangue tão quente que parece sufocar, e a boca fica seca de um jeito indecente? Nos últimos 5 minutos, enquanto escrevo estes parágrafos, tive várias ideias, indo e vindo, umas contra as outras, se misturando por todas as direções. Parece aqueles vídeos do Instagram com carros vindo de várias ruas ...

Sobre: Portas que permanecem abertas

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Eu tenho pensado em tanta coisa que nem sei explicar, minha cabeça fervilha em ideias, lembranças e ficções, misturando o passando com projeções imaginárias de um futuro irreal e inexistente. É difícil quando a gente não se conecta com os próprios pensamentos e tudo a nossa volta parece não ter sentido algum. Eu me sinto assim, desconexa, querendo fugir para algum lugar que eu nem sei onde é, sempre caminhando paralelamente à um abismo e esperando um tropeço ou um desvio para que eu possa cair nesse profundo de silêncio. Eu fecho os olhos e sinto uma dor tão profunda e agonizante que dá vontade de gritar. O vento fraco que entra pela janela trás um perfume suave e as poucas estrelas que consigo ver daqui refletem um desejo de me entregar ao infinito. Desconheço o caminho que estou seguindo. Algo em mim insiste em dizer que estou apenas tentando me encontrar, descobrir quem eu sou de verdade, quem eu posso ser, quais as coisas que eu gostaria de levar comigo em minhas jornadas e quais ...

Sobre: Criar expectativas de mais

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Houve um dia desses que acordei e vi que eu não reconhecia nada em minha vida, tudo o que eu acreditava, esperava, queria estava vinculado a algo que tinha ruído. Uma sensação de perda e desespero batia forte em meu peito me sufocando de uma forma incomum, porque além da decepção eu me senti completamente perdida e vazia. Perder algo que a gente acredita possuir pode ser uma ruína tão completa que destrói de uma só vez todas as estruturas que construi até aqui. É triste e muito dolorido quando temos nossa verdade arrancada de nós de uma forma violenta. A verdade é que criamos tantas expectativas que demora muito para gente entender que a decepção nada mais é que um reflexo de nós mesmos. Um dia eu tinha todas as certezas, todas as perguntas respondidas, toda a segurança de que estava tudo “nos trilhos” e no outro não tinha mais nada e tudo o que acreditava e toda expectativa que criei e tudo que eu esperava estava estraçalhado diante de mim. Um sentimento de dor intensa permanece dentr...

Sobre: Escrevendo coisas novas no blog

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Por muitos anos este blog foi um ponto de apoio pra mim. Eu escrevo nele desde 2010, mas na verdade eu tinha outros blogs desde um pouco antes que se perderam por aí. Escrever era muito além de um hobby, aqui nas longas postagens ou simplesmente numa frase qualquer há muito de mim. Histórias reais que vivi, estórias que inventei, sonhos que sonhei e dores que senti. Seja em forma de poesia ou de texto, eu passei pelos piores momentos da minha vida com um computador na mão transformando o que estava em mim em palavras e me deixando fluir em cada linha. Perder esse hábito de escrever, ou deixar que a vida sufocasse isso também, me deixa triste, pois era uma parte de mim que gostava de ter, falar sobre tudo, como se meu pc pudesse me ouvir e me consolar com minhas próprias palavras. Apesar de ter vivido tempos sombrios, eu encontrei nas palavras uma forma de sobreviver a mim mesma. De uma forma ou de outra, cheguei até aqui deixando um legado que fez parte do meu caminho. E agora eu quero...

Fim…

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Qual é o limite entre insistir e desistir? Eu tenho insistido… há anos, mas estou cansada.  Eu sei que muitos vão pensar que estou querendo aparecer, não julgo. Eu tenho pedido ajuda mas ninguém me ouve. Eu não desisti no primeiro tombo, sabe! Eu não desisti na primeira vez. Eu levantei a cabeça várias vezes, em frangalhos, mal me aguentando… eu levantei. Eu já quis desistir várias vezes, eu tentei desistir, mas ai me levantei outra vez… e mais outra…  Mas agora eu não vejo como, eu não vejo porquê! Já ficou muita coisa pra traz e não tenho mais nada por quem lutar.  Eu me levantei todas as vezes, sozinha… agora eu quero desistir, de verdade. Eu não tenho mais motivo pra continuar. Já perdi tudo que se poderia perder. Me chame de tudo, mas não me chame de fraca, por favor! Mesmo sozinha eu cheguei até aqui, mesmo apanhando forte da vida eu fui seguindo, caindo, levantando…  Eu até tentei … eu juro eu tentei falar que dessa vez eu não consigo só. Eu procurei ajuda, ma...

Sobre Spam e Publicidade

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Recentemente eu estava “fazendo uma limpa” na minha caixa de entrada e pensei na quantidade de e-mails que eu recebo diariamente. São muitos minha gente! A maioria deles eu não faço ideia de onde veio, alguns, bastou eu comprar uma vez em determinada loja e voila, ganhei um passaporte para receber oito / dez e-mails por dia. (Se alguém da Fast Shop ou da Shein estiver ai…. ) Fazendo este exercício eu apliquei muitos filtros que mandam todos esses “e-mails intrusos” para a lixeira automaticamente, alguns mandei para o spam, pedi o cancelamento de várias e várias listas, algumas que eu havia me cadastrado, mas não entrega conteúdo, outras que não sei de onde veio…  No fim eu percebi uma coisa interessante: dos inúmeros e-mais que recebo diáriamente, somente 02 (isso mesmo DOIS) eu leio. Ambos chegam a cada quinze / vinte dias! Isso me beirou ao absurdo! De quem foi a ideia de mandar tanta informação inutil assim? Para que as pessoas estão gastando horrores em e-mail marketing? Será q...

Caos

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O mundo está perdido. Invertido tudo fora do lugar, um caos! Caos: ultimamente essa palavra tem dançado em minha mente, aparecido em meus sonhos, navegando errante pra lá e pra cá pelos meus lábios e meus dedos. Talvez por ser uma palavra bem curtinha que explica tudo ao mesmo tempo que não explica nada. O caos tem feito parte de tudo e tudo está um caos. E a mera tentativa de explicar isso descarrilha o trem desgovernado da vida que segue sem destino. As vezes eu penso em parar esse trem! Essa ideia vaga e imprecisa brinca com minha realidade há tempos, como uma ideia fixa, sussurrando a melodia do flautista. Uma ideia fixa, um trem desgovernado e o caos… Embora pareça a receita de um desastre, o mundo ia continuar, se o trem parasse de repente. O sol iria nascer e outros tantos trens caóticos seguiriam sua dança desconexa e ao mesmo tempo perfeitamente sincronizada da vida. Mas pra mim, seria então paz e o silencioso abraço da calmaria.

Por hoje é só um desabafo!

Quando li uma mensagem incomum do trabalho, antes das 8h da manhã já pensei “boa coisa não é” e, considerando que fiquei trabalhando até mais de meia noite, já peguei um café forte e fui ver “que m#rd@ eu tinha feito”. Inocente, não juntei uma coisa na outra quando meu acesso deu bloqueado na máquina de trabalho… mas foi assim que fiquei sabendo do meu desligamento do projeto que me dediquei nos quase dois anos passados. Foi exatamente assim, com um acesso bloqueado… Eu ouvi a explicação, suavizada e calma, de um dos profissionais que mais admiro atualmente e não conseguia deixar de pensar “Poxa! Eu trabalhei até mais de meia noite, não poderia ter rolado um rápido "você tá fora” ontem?" (Ah! e trabalhei até mais de meia noite, porque a infra é melhor quando todo mundo vai embora, então fica menos doloroso para os builds intermináveis do projeto). Mas tudo bem… tudo bem porque eu achava que sabia o motivo. E eu respeito. Eu sou uma pessoa insuportável, intragável, difícil! So...

Uma visão sobre a morte

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Eu sempre fui fascinada com velórios, apesar de não gostar de me aproximar do corpo, lembro de ficar curiosa e observando as pessoas, pensar em como elas pareciam vulneráveis.  Quando descobri os livros de Erico Veríssimo, que tem uma peculiar característica de retratar um velório, eu mergulhei e consumi muitas narrativas com esse tema.  Então… a morte me quebrou.  Me partiu em milhões de pedaços desconexos que jamais fui capaz de agrupar os fragmentos outra vez.  E tudo mudou. As idas à velórios passou a ser não mais que uma obrigação e de repente eu só enxergava a dor. Vejo minha própria perda refletida naquelas pessoas, como um espelho profundo e infinito que mostra claramente o universo desconhecido e quieto de solidão.  As tentativas frustradas de preencher o vazio e o adeus que se perpetua na despedida, nas ações e preocupações mecânicas que envolvem o ritual e o olhar desesperado de horror e tristeza passou a ser, para mim, não só visível, mas sentimental...

Os livros que li em 2020

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  A literatura, para mim, é um mundo à parte. Lembro, desde pequena, que usava os livros para fugir da realidade, muitas vezes confundindo  a própria realidade com as histórias que lia. Eu nunca fui apegada às ditas “leituras inteligentes”, gosto mesmo é de mergulhar no imaginário e construir mundos paralelos com cada personagem. Alguns intensos, outros mais rasos, acredito nos relacionamentos que criamos com os livros. Costumo dizer que sempre extraio algo de cada leitura, mesmo que esse algo não seja, necessariamente, positivo.  Que 2020 foi um ano atípico, todo mundo sabe. Cada um de nós tentamos lidar com os fatos à nossa maneira e criamos escapismos para suportarmos a pressão, vinda de todos os lados. Para mim, a leitura foi esse ponto de impacto. Excluindo todo o tempo que levava no trânsito, para ir e vir do trabalho, além do tempo gasto para “arrumar” para o trabalho, sobrou algum tempo extra e mais livros entraram em minha rotina.  Ao todo eu li 26 livros (i...